
01.10.2025
Corria o ano de 1941 quando Stefan Zweig, expatriado de um Europa moral e materialmente arruinada, publicou um livro sobre o Brasil, país onde descortinou , com o seu quê de sôfrega necessidade de reencantamento, uma outra forma de convivência entre seres humanos de muito diversa proveniência. O contrário do que então ocorria no Velho Continente.
O livro acabou por intitular-se Brasil País do Futuro, o que deu origem a irónicas divagações no universo cultural brasileiro.
A verdade é que , quase um século transcorrido, o Brasil se afirma cada vez mais como um grande país do presente. Já não é apenas a promessa de uma utopia irrealizável, é , em toda a sua complexidade, uma nação de primeiro plano no mundo actual.
Nos planos político, económico e cultural, o Brasil tem-se vindo a impor no contexto internacional , suscitando um misto de admiração e alguma apreensão na esfera civilizacional que comummente designamos por ocidental. A admiração resulta de motivos óbvios: estamos perante uma democracia política empenhada em ultrapassar as ancestrais desigualdades sociais, uma das maiores economias do mundo e um pujante lugar no plano da criação cultural. A apreensão resulta de algum receio face ao posicionamento do país no quadro internacional.
Para nós, europeus, é quase evidente que o Brasil integra, com as suas naturais especificidades, o espaço político-cultural em que também nós nos inserimos: o espaço que valoriza a democracia constitucional, o respeito pelos direitos humanos, o racionalismo crítico, a liberdade de criação artística, a ciência, a preocupação com a compreensão do outro. Mesmo sendo verdade que este modelo está a ser alvo de um feroz ataque a partir do interior das nossas sociedades, ele ainda é prevalecente e continua a singularizar-nos. Ora , o Brasil, insere-se plenamente nesta parte do Mundo. Tem-se vindo mesmo a constituir numa referência e num exemplo. Enquanto os EUA demostraram uma inexplicável incapacidade de tratar adequadamente o assalto ao Capitólio, as instituições políticas e judiciais brasileiras têm vindo a revelar uma assinalável maturidade que suscita o aplauso dos democratas de todos os lados. O mesmo se poderá dizer em relação a vários outros domínios: adopção de políticas de combate às desigualdades , promoção dos direitos de minorias historicamente discriminadas, valorização das novas temáticas ambientais, impulsionamento da investigação científica de ponta. Há um longo caminho por realizar, mas a orientação parece ser clara e correcta.
O Brasil , contudo, parece apostar mais na ligação aos países do chamado " Sul Global" , sendo mesmo membro fundador dos BRICS. Em certas ocasiões houve mesmo alinhamento com uma retórica anti-ocidental fomentada por países de tradição autocrática. Para fazer face ao risco de um incompreensível afastamento entre a UE e o Brasil ,o caminho só pode ser um: reforçar as ligações entre as duas partes. Daí a importância da rápida concretização do Acordo UE-Mercosul. Será muito mais do que um entendimento no âmbito comercial, será um instrumento fundamental de cooperação política e colocará o Brasil num lugar privilegiado no que diz respeito à ligação do Ocidente com outras regiões do mundo.
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